«Coreia do Norte? Nunca tinha estado num ambiente daqueles»

Benfica de Macau está a fazer história nas competições asiáticas com uma equipa recheada de portugueses. Treinador e jogadores contam o que viveram no país mais fechado do mundo, onde vão regressar para mais um jogo, desta vez num estádio que bate recordes.

«É uma viagem no tempo». As palavras são de Carlos Leonel, o madeirense goleador do Benfica de Macau, que na passada semana se deslocou à Coreia do Norte para defrontar o Hwaebul. Um jogo inesquecível para todos os que fazem parte do campeão macaense, equipa recheada de portugueses, já que, além da curiosidade da viagem a Pyongyang, é a primeira vez que uma equipa de Macau marca presença na fase de grupos da Taça AFC (a congénere asiática da Liga Europa).

Finda a segunda jornada, o Benfica de Macau soma seis pontos, fruto de duas vitórias. A primeira, por 3-2, em casa, frente ao Hang Yuen FC, de Taiwan, depois de estar a perder 0-2 ao intervalo, com Carlos Leonel a bisar. A segunda foi na Coreia do Norte, frente ao vice-campeão Hwaebul, por 3-2, novamente com um bis do avançado português, que tem já também nacionalidade macaense.

«Chegar a um campo com 32 mil pessoas, todas vestidas da mesma forma, que não se calam durante um bocadinho a efetuarem coreografias com um rigor… uma coisa que eu nunca vi na vida… e ver os meus jogadores, que não estão habituados a estas andanças, a tremerem no aquecimento. Não é fácil retirar esta pressão», conta ao Maisfutebol o técnico Bernardo Tavares, que é desde o inicio do ano o timoneiro desta armada.

«Eu nunca tinha estado num ambiente daqueles. E ainda por cima não tínhamos nenhum adepto a apoiar-nos, eram todos contra. Estávamos a lutar contra uma nação. Era uma coisa surreal», explica o médio Hugo Silva, que se transferiu em fevereiro do Anadia, do Campeonato de Portugal, para o tetra campeão macaense.

Hugo Silva garante que o ambiente no estádio Kim Il-Sung até ajudou a formação macaense. «Motivou-nos ainda mais. Unimo-nos, passámos por dificuldades, e conseguimos um feito histórico».

A mesma opinião tem o avançado Carlos Leonel. «Foi espetacular, espetacular. Não houve qualquer tipo de intimidação pela parte deles. Só queriam ver um jogo de futebol. Senti uma felicidade enorme por fazer parte daquele espetáculo e quis mostrar o que sabia fazer», garante. E fez mesmo, ao marcar dois golos que voltaram a ser decisivos.

No final, os jogadores do Benfica de Macau foram agradecer aos adeptos e saíram de campo debaixo de uma gigantesca ovação. «Inesquecível», garantem.

Adeptos norte-coreanos

Viagem ao desconhecido

Além de terem poucas informações sobre o adversário e só terem conseguido ver imagens de um jogo do Hwaebul, que foi na Mongólia, no play-off de acesso à competição, o treinador e jogadores do Benfica de Macau pouco sabiam da Coreia do Norte e do itinerário que fariam no país. Por isso, ao embarcar para Pyongyang, capital da Coreia do Norte, a equipa sentia que ia rumo ao desconhecido.

«Para ser sincero, ia com receio, tanto que nem telemóvel levei», conta Hugo Silva.

«Quando chegámos fomos muito revistados: telemóveis, máquinas fotográficas, foi tudo analisado minuciosamente, tiraram os números de série, e à saída voltámos a mostrar tudo», relata o treinador Bernardo Tavares.

O médio Hugo Silva conta que até o livro que levava foi analisado. «Quiseram ver, saber qual o conteúdo».

E passadas as formalidades do aeroporto, a realidade da vida norte-coreana foi a tal viagem no tempo de que Carlos Leonel falava. Os três portugueses encontraram em Pyongyang muitas pessoas nas ruas e poucos carros. Os que circulam, andam devagar e com um grande respeito pelas distâncias entre veículos. «Uma das coisas em que reparei foi que se veem famílias inteiras, várias gerações juntas, a praticar desporto, na agricultura, ou a passearem de bicicleta. Foi algo que gostei de ver», conta Bernardo Tavares.

As roupas, de corte muito característico, não parecem ter lugar para cores vivas, com os habitantes a vestirem sobretudo de azul escuro e de castanho.

Pyongyang

Numa cidade com pouco comércio, e em que os estrangeiros não podem comprar bens essenciais nos supermercados, só nos hotéis, são muitos os que se dedicam à agricultura e é frequente ver pessoas a repararem buracos ou a limparem as ruas. «As pessoas parecem mecanizadas naquela rotina», conta Hugo Silva.

Carlos Leonel diz que se nota que os norte-coreanos «gostam de ler os jornais e ficam entusiasmados com as mensagens do líder».

E o que mais impressionou os três portugueses com quem o Maisfutebol falou foi a limpeza e organização. «É um país extremamente limpo. Não se vê uma beata no chão», destaca Carlos Leonel. E a equipa acabou por se embrenhar nesse espírito. «Antes de sairmos do estádio, estivemos a limpar o balneário todo, pedacinho de relva por pedacinho de relva, porque fomos contagiados por aquele sentimento de cuidar. Estava tão limpo antes, que não quisemos deixar sujo no final», relata o avançado.

Um planeta diferente

Na arquitetura, edifícios novos e modernos convivem lado a lado, e são muitos os monumentos bélicos e museus ligados a guerra.

Pelas ruas há grandes painéis com imagens do ditador Kim Jon Un com o pai Kim Jon Il ou do pai com o avô Kim II-Sung». E mesmo à noite, a partir das 21:00, quando as ruas ficam sem iluminação, esses painéis continuam iluminados. Mas a essa hora, os estrangeiros não podem admirar as imagens dos líderes coreanos porque têm que estar recolhidos nos hotéis. Sair é só durante o dia, sempre com guia, e para tirar fotografias é preciso pedir primeiro.

Imagem de Kim Jon Il e de Kim II-Sung no topo de um edifício

Ainda assim, no grupo, o sentimento geral parece ter sido de segurança. «Acho que não deve haver criminalidade na cidade», conta Hugo Silva. Sentimento partilhado por Carlos Leonel.

«Não senti nem um segundo de receio. Já viajei muito em jogos internacionais e arrisco dizer que foi dos países em que fui mais bem recebido. Não podemos fazer aquilo que queremos, mas dentro das regras que nos impõem, dá para termos uma estadia agradável», garante o avançado, que diz ainda que a impressão geral que teve foi de estar «num país civilizado».

Já Bernardo Tavares sentiu que estava «num planeta diferente», sobretudo porque «as pessoas não têm acesso à internet». «Por exemplo, na conferência de imprensa de antevisão, as perguntas que os jornalistas me faziam eram sobre o que é o Benfica de Macau, quem era o Bernardo Tavares, quem era o jogador A ou o jogador B… Coisas que facilmente se podem pesquisar, mas eles, como não têm acesso à internet, perguntavam-nos a nós».

Equipa em Pyongyang

E o Maisfutebol também sentiu que o jogo tinha sido num planeta diferente. Quisemos acompanhar o jogo e consultámos por várias vezes o site oficial da competição, e outras fontes habituais de resultados, mas nada. Só várias horas após o fim do encontro conseguimos saber como ficou o marcador. Situação insólita, já que em todos os outros jogos era possível acompanhar em real time o resultado.

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